Engraçado constatar que, depois de todo esse tempo, eu ainda penso em você. É bem verdade que isso vai contra a minha vontade de permanecer indiferente toda vez que te vejo, ou que nos falamos pelo telefone, mas é um sentimento estranho que nem eu saberia definir, uma coisa meio incontrolável de sempre te querer por perto, mesmo distante de mim. Os cumprimentos socialmente exigidos e os assuntos muito rapidamente criados durante uns poucos minutos de conversa atropelada são o suficiente para me manter ligada à você a noite inteira. Como se, só pelo fato de estares ali, dentro do meu campo de visão, te tornasses um pouco meu. Um pouco dentro do meu mundo, da minha rotina, da minha vida, como um dia quis que fosse.
Normalmente, quer dizer, digo isso na relação atual que recriamos, não falaria nada além do básico tratamento de quem finge não estar aí pros acontecimentos. Até porque te fechaste pra mim de tal forma que senti, de longe, a tua repulsa. Era mesmo repulsa, afinal? Era uma incógnita que muito me invadia os pensamentos. Aprendi a te reconhecer com o tempo. Vi em muitas das tuas atitudes uma certa auto-proteção. Comecei a perceber, assim, bem aqui dentro e sem compartilhar com ninguém, que o que fazia te afastares era justamente o medo diante de mim. Como se de alguma forma eu te assustasse ao se deparar com alguém que, sim, confiava em ti, sim, acreditava em ti, e, sim, gostava de ti.
Vi que tentavas me mostrar, a todo custo, que eras uma pessoa complicada. E quando em algum momento te falei, de coração praticamente inteiro nas tuas mãos, que eu estava contigo porque me passavas segurança, a indignação contida naquela tua resposta - que não passou despercebida aos meus olhos - me mostrou que o problema estava além dos pequenos vai-e-vem causados pela inconstância de nós dois. Estava todo ali, em você. Não que eu fosse a dona da verdade. Mas o fato é que aquela atitude transpareceu de forma clara toda uma insegurança fruto de relacionamentos passados. E quer jeito pior de se confundir do que comparar os amores que tivemos com o que vamos ter? Inevitável, eu diria. Só que, às vezes, perdemos oportunidades por não termos a coragem de encarar, jogar-se de cabeça, entregar-se por completo e amar. Mas amar muito. Então, tudo se vai sem nenhum pingo de emoção. Perde-se o tempero da vida. E eu bem sei como é difícil ultrapassar essas barreiras.
Eu muito quis ficar do teu lado, tu sabes. E acho mesmo que seríamos bem felizes, se tivesses ao menos dado uma chance para reparar os meus erros. Ou melhor, se ao menos tivesses dado uma chance para você mesmo. Porque sentimento era o que não faltava. O que realmente desfalcava era a sua eterna luta contra o próprio eu . Como se não fosse digno de ser amado. Ou pior, como se não fosse digno de ser amado por mim. E, mais ainda, de amar em reciprocidade. Esqueça a idéia de que ser complicado é apaixonável. O fato de ter visto em ti o meu porto seguro já era motivo suficiente para querer estar do teu lado uma vida inteira. E aquele nosso jeito tão cúmplice nos fazia completos. Um para o outro. Mas não enxergaste tudo isso. Aliás, até enxergou sim. Só não te permitiste viver esse amor por puro susto.
E agora que tudo voltou ao normal e a nossa relação não passa de uma simples cordialidade do acaso, eu penso se as coisas eram mesmo pra ter acontecido desse jeito. Entristece-me saber os momentos lindos que perdemos naquele ambiente dos nossos planos sem ao menos dar-nos um beijo. Entristece-me imaginar como seria se, ao menos uma vez, tivesses sentado ao meu lado para me dizer coisas bonitas. E como seria se, após uma conversa arrastada, soltássemos verdades engatadas, culminando com o mais sincero dos abraços. Entristece-me imaginar porque seria mágico. Tudo seria muito perfeito. Perfeito o suficiente para me reapaixonar por ti. Para querer montar novamente o nosso ninho, ter de volta os nossos carinhos, renascer no nosso mundo que há tempos já morreu.
É o que eu sinto quando nos falamos. Sobrevivendo das tuas migalhas, os meus pensamentos procuram involuntariamente uma resposta. Aquela que eu já conheço, mas que reluto em aceitar. Não era pra terem acontecido os encontros. Não era pra ter rolado o beijo. Não era pra teres sentado do meu lado. Não era pra termos conversado. E nem pra rolar um último abraço. Simplesmente, não eram. Porque tu és mesmo aquela pessoa complicada que querias que eu visse. E perdes mesmo as oportunidades que te aparecem. Agora que meu coração já consegue te olhar distante da loucura, eu digo que mereces mesmo alguém melhor do que eu. Juntando o teu ceticismo com a minha credibilidade, constato: éramos muito mais do que isso. Ainda que meu ego insista em querer te fazer sentir, aqui dentro, eu não sinto mais. Apenas matuto, como uma eterna aproveitadora dos pequenos momentos, o como seria. E.. ah... como seria perfeito. Ou melhor.. como poderia ter sido (e não era pra ser, como você mesmo disse).
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