segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Pela Raiz



O relacionamento já havia terminado há uma semana quando o interfone tocou. Era o porteiro informando que ele estava lá embaixo pedindo pra que ela descesse. Não o esperava, mas desceu por respeito ao relacionamento que existira e fora sepultado recentemente.
.
Encontrou-o com cara de luto. Ele abriu a porta do carro por dentro mesmo e ela entrou. Por milésimos de segundo ela não soube como cumprimentá-lo: um beijo no rosto? Um abraço carinhoso? Decidiu ficar imóvel e respeitar a tensão que crepitava nos olhos dele. Colocou um sorriso leve nos lábios, torcendo para que não fosse mal interpretada. Queria apenas trazer leveza ao encontro, não desejava magoá-lo ainda mais.
.
- Vim aqui porque preciso saber...
.
Mal dita a frase, ele virou-se em direção ao banco traseiro do carro e pegou uma sacola de loja de shopping. Colocou-a no colo e começou a retirar cartas e fotos, atirando-as convulsivamente pelo painel do carro, pelo chão, pelos bancos. Eram as cartas que ela enviara pra ele durante 5 anos de relacionamento. Eram as fotos deles voando como fagulhas sem destino, enquanto ele falava com o tom de voz alterado:
.
- Isso não significou nada pra você? Tudo isso foi uma mentira? Você não sente mais nada? Não deseja as mesmas coisas? Não quer mais um futuro ao meu lado? O que aconteceu?
.
As lágrimas escorriam do rosto dele. Enquanto as mãos se alternavam entre atirar pedaços de papel, amassar algumas folhas e aninhar outras próximas ao peito.
.
Ela segurou as lágrimas. Engoliu o choro. Ensaiou mentalmente a sua voz mais doce e calma e disse a ele:
.
- Significou muito. Foi tudo verdade. Cada palavra, cada desejo, cada sonho aí descrito. Foi com você que eu aprendi o que é um relacionamento de verdade. Mas o tempo passou, eu mudei e fui percebendo que tenho outros sonhos. Não posso me trancar na nossa vida sem ter outras experiências lá fora. Nós nos conhecemos jovens demais...
.
Enquanto ela ia falando, as mãos dele apertavam com mais força cada pedaço de papel. Ele não a olhava nos olhos. As lágrimas ainda caíam.
.
- Mas pra mim não mudou. Ainda quero você.
.
- Fomos nos afastando a ponto de as sintonias ficarem diferentes. Não é culpa sua, nem minha. Acontece.
.
- O que precisa ser mudado? Eu mudo! O que você quer de mim?
.
Ela percebeu que o corte deveria ser drástico. Não seria possível minimizar o sofrimento dele. É imprescindível chorar pelos mortos. Ele precisaria odiá-la primeiro para depois poder seguir em frente. Não criaria ilusões e nem manteria sua fé. Respirou fundo. Calculou seu tom de voz mais frio e seu olhar mais duro:
.
- Eu te amei, sim. Mas isso acabou. A gente acabou. E se você ler com cuidado o que vinha te escrevendo, vai perceber que há um tempo as coisas estavam mudando pra mim. Eu preciso sair por essa porta agora e não quero mais que você me procure. Preciso seguir em frente e quero que você faça o mesmo. Sempre terei muito carinho por você, pelo que vivemos. Desejo que seja feliz. Mas não vou ficar aqui velando defuntos. Então me deixa ir. Acabou de verdade.
.
Ele havia parado de chorar. Estava inerte, encostado no banco, com os olhos perdidos além do vidro da frente. Ela lhe deu um rápido beijo na face, saindo do carro sem olhar pra trás. Era a coisa certa a fazer. As rupturas às vezes devem ser feitas de maneira fria. Não há espaço para a delicadeza quando se mata algo. O jeito é enterrar com decência e seguir a vida. Para que um dia o outro perceba que há muito as ervas daninhas cresciam em volta daquela linda flor que fora arrancada da terra.

Nenhum comentário: