
Hoje eu sonhei que os meus dentes caíram todos, um por um. Lembro-me que a cena se passava em um ambiente muito humilde, uma rua com terra batida e várias casas sem porta, cujo o único cômodo era protegido por um pano colorido jogado na frente. Eu tinha muitos vizinhos e a movimentação era de comércio, mesmo sem quinquilharias para vender, na verdade, só tinham bancas de doces de esquina, como cocadas e tapioquinhas. Na minha casa nada vendia, só o que se passava era uma menina acordando e saindo debaixo do mosqueteiro. Então, eu sentia um gosto estranho na boca, e passava a língua nos dentes, sentindo-os moles, levantei-me apressada e olhei-me no espelho rachado da parede. Era fácil, muito fácil, assustadoramente fácil de arrancar. Como dentes de leite, eu puxava com os dedos, e saíam, saíam todos, enquanto chorava, chorava, chorava muito. Não de dor, porque não doía, mas de desfalque, sentindo minha vaidade escorrendo pelo ralo da pia em forma de água vermelha. Surgiam figuras conhecidas ao redor, tentando me consolar ou dizendo que tudo se resolveria com a descoberta de um novo tratamento para crianças. E me mostravam modelos de arcadas infantis, todos com o mesmo problema que o meu, mas eu não ouvia, eu só pensava em sair correndo pela rua de terra batida, mesmo mutilada, mesmo sangrando, mesmo sem dentes.
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Não lembro o momento que dividiu um sonho de outro, mas lembro que antes de acordar, ainda dormindo, pensei nas horas mais cedo, em que tive outro sonho, dessa vez com o cara De Azul. Encontrávamos-nos na minha própria casa, mas era diferente, porque a minha casa não era bem familiar. Havia sempre uma meia luz, exceto na cozinha e no quarto, neste último, ainda funcionava um abajur de luz amarela. Então, a gente deitava junto, se abraçava, encostava o corpo no outro como velhos conhecidos, e era mesmo alguém próximo e conhecido e íntimo e amado, mas não lhe pertenciam aquele corpo e aquele rosto. O engraçado era que eu sabia que era Ele, mesmo no corpo de outro, fazendo da nossa intimidade recapitulações de um passado, com uma pequena diferença, era possível se aproximar e deitar junto e se abraçar, mas a gente não se beijava. Era impossível, não podia, tinha ali um quê de heresia que eu não entedia, ou melhor, entendia e cumpria, e mais, era como se isso instigasse ainda mais a vontade de permanecermos juntos, percebendo que mesmo em sonhos o difícil e proibido é encantador, inebriando corações à procura de desafios.
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Mas como eu ia dizendo, antes de acordar, associei a relação herege com a perda dos dentes, achando que um era ligado ao outro, parecendo punição, ação e reação, sei lá, só sei que pareciam tão ligados e absolutamente tão reais que me desesperei e acordei chorando, tocando os dedos nos dentes que permaneciam na boca. Já não é de hoje que tenho sonhos assim, tão reais. Eles me encantam e me apavoram com a mesma intensidade, porque, se faz parte do inconsciente, vêm em mim os motivos de tais sonhos, questionando os porquês, as fraquezas, as ânsias e as frustrações, porque, você sabe, parte do nosso aprendizado vem justamente das frustrações, daquilo que criamos e aumentamos nas fantasias, aliás, todas as expectativas se baseiam nas ilusões que fazemos das pessoas e daquilo que queremos para nós, o amor é construído pela fantasia que criamos a cerca dele, a decepção acontece pela idealização de alguém que consideramos perfeito para a convivência conosco e etecétera. Os sonhos seriam então a realização de desejos, disfarçados ou não, satisfeitos em pleno campo psíquico. Seria eu, então, querendo o quê, afinal?
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A verdade é que se enlouquece pensando nos seus significados, porque as possiblidades são infinitas, e se Freud diria que eram desejos internos, a sabedoria popular diz que sonhar com dentes caindo é sinal de morte. Ou então, pode ser considerada a perda de alguma capacidade de defesa ou tem haver com a auto-estima, já que os dentes influenciam esteticamente na aparência, enfim. Prefiro parar de pensar. Eu sonho demais sempre, sonho com pessoas desconhecidas, com conhecidos que mal vejo, lugares que nunca estive e que depois conheci, inclusive, já passei anos sonhando com a mesma coisa, uma mão, sozinha, aparecendo no meio dos sonhos. Era assustador. Faz muito tempo que isso não acontece e nunca procurei saber o significado, mas lembro bem que rezava muito para que parasse. Ultimamente, os sonhos têm sido constantes e muito reais pro meu gosto. Não sei se é pior a insônia acordada ou os pesadelos dormindo. Preciso cuidar da alma. Preciso cuidar do meu espírito e da mente, rezar mais do jeito que a minha avó me ensinou: “Meu Deus, dê uma boa noite de sono pro meu pai, pra minha mãe, pros meus irmãos, a mim mesma e a toda a minha família e amigos, dai-nos uma boa noite, sem pesadelos”. Eu sinto as mãos de unhas bem cuidadas segurando a minha mão de criança e falando em voz alta essa frase quando acordei de madrugada. É engraçado como lembranças podem ser claras, como sonhos podem ser reais e como o presente é influenciado por tudo isso.
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EU HEIN.
EU HEIN.
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